Era uma moça bem comum, cabelos castanhos, olhos escuros, até meiga, família completa em casa, gostavam de jogar cartas e tabuleiros, não tinham problemas com ninguém. Catarina tinha um sonho, ser médica, era muito estudiosa, participava do teatro da escola e de todas as outras atividades extracurriculares. Ela não era feia, ela era normal, tinha pele clara e era um pouco baixa.
Todos os dias Catarina ia para a escola com seu pai, que era fisioterapeuta, ele recomendava sempre que ela se sentasse direito, caminhasse direito, dormisse corretamente, por isso Catarina desenvolveu um senso de postura corporal invejável.
Na escola certo dia, o dia que ela mais lembra de ter gostado, fizeram experiências de física, ela se sentia atraída pela física, sempre que podia lia sobre e também astronomia, exibia certo fascínio pelas estrelas, galáxias, cometas e todos os tipos de corpos celestes.
Mas a vida dela mudou quando começou a pandemia mundial de SARS-CoV-2, a Covid, cada vez mais seu senso de ajudar os outros a impelia de sair, queria estar lá na frente, porém era jovem e mesmo querendo ser médica, teve que ficar em casa como todo mundo.
Ela andava para cima e para baixo em seu quarto, um quarto comum de menina jovem, paredes cor de creme, móveis em MDF com cores claras. Ela gostava de cores claras. Mas havia algo muito errado em ficar em casa o tempo todo, Catarina começou a sentir que precisava se emaranhar em alguma coisa, algum passatempo. Ler? Mas seria mais do que ela já faz, não queria ficar no computador, estava cansada disso, então resolveu olhar alguns vídeos no celular.
O YouTube continha diversas inserções e narrativas preparadas especialmente para ela, mas ela não queria ver nada do perfil dela. Queria algo diferente, algo menos Catarina. Foi então que pensou - Vou ver um vídeo sobre teorias da conspiração. E depois passou a ver outras recomendações, espiritualidade, coisas alienígenas, vídeos de pessoas certas de que o fim estava próximo, muito conteúdo ruim, ruim mesmo, mas coisas boas também. Isso tudo a fez pensar muito e os dias foram passando...
Certa vez ela caiu em um vídeo sobre projeção astral e se interessou, continuou estudando sobre como aquelas pessoas viam o mundo, muito deles pareciam falar com propriedade. Quando ela contava a suas amigas, elas pareciam não estar nem um pouco afim de saber de nada disso, mas ela estava interessada e foi mais a fundo, passou a ler sobre como vários estudiosos, cientistas, filósofos entendiam e compreendiam fenômenos inexplicáveis relacionados a morte.
Enfim, passou-se dois anos e o fim da pandemia parecia próximo. Catarina já ia a escola, falava com as amigas, se protegiam e algo de normalidade já entrava em sua vida. Porém, ela sentia que havia mudado, ela não era mais só ela, que fazia parte de um todo. Ela não mais estava presente nas conversas dos seus amigos, ela não mais sentia tanto interesse na aula de física, sentia que tudo aquilo era meio estranho e básico.
Foi voltando a tarde para sua casa, a pé, com o sol baixando por traz das casas que algo inesperado ocorreu. Ela fechou os olhos, caminhou, passou a sentir o vento, escutar os pássaros, sentiu que estava vivendo para fora. Deixou seu eu virar um todo, ela teve um momento único, tão único que foi a pioneira em todo o Planeta Terra a sentir aquilo, ela sentiu uma evolução de dentro para fora e bem ali, parada na calçada ela mudou.
5 bilhões de quilômetros dali, em uma cúpula dourada, repleta de longas janelas muito altas, haviam muitos seres, de muitas espécies, mas todos com o mesmo objetivo: a evolução pessoal dos seus iguais. Sentados em círculo sobre bancos que flutuavam, pairando no ar, abriram os olhos, sentiram uma força que já a algum tempo não sentiam. Ocorreu um despertar.
Um ser azul de aparência mais velha, detentor de uma grande barba branca que de tão grande enrolava-se no chão olhou e todos escutaram em suas mentes uma frase: quem diria, um humano!
Catarina então podia ouvir todos os pensamentos, todas as ligações na terra e no espaço, ela via cores não vistas, ela via linhas entrelaçando tudo, o mundo agora era explicável, o universo era sentido de uma forma jamais sentida, ela era uma com o todo e então ela pensou e foi.
Catarina estava agora na câmara dos outros seres, no meio de todos, parada ali em pé, ouviu em sua mente que ela agora era a representante da humanidade no que parecia um conselho. Que loucura, ela pensou...
Continua...