Numa manhã destas bem comuns, Silve acordou e olhou para fora, para o céu já clareando com tons meio rosados, seria um dia lindo, pensou. Então, passou a sua rotina normal, fazia tudo igual todos os dias, era uma pessoa maniática, gostava de dias que se repetiam sem surpresas, lavou seu rosto e observou aquele liquido azul escorrendo por entre seus dedos, brilhando com a luz da manhã. Fez exercícios matinais programados por ele para atender todas suas necessidades e após as atividades físicas, sempre parava e observava que sua pele ficava ligeiramente mais rosada ao olhar-se no espelho.
Já pensava no que iria trabalhar naquele dia, pois era um linguista e simbologista, e dos bons, era muito famoso no mundo todo, havia ganhado muitos prêmios por pesquisas com linguagens antigas e decifrações de mensagens ocultas de outros povos. Era o melhor no que fazia e sentia-se reconhecido na sociedade como um professor.
Após seu desjejum matinal, Silve se preparava para ler um compilado de informações e notícias que o faziam ter prazer em viver, pois, era ávido por conteúdos. Mas aquele não era um dia comum, algo inesperado iria acontecer.
Silve escutou inconvenientemente muitas vozes e movimentação em torno de sua residência. Muito estranho, pensou. O que será que está havendo? Vou ficar em silêncio para pensarem que não há ninguém em casa.
“Pam, pam, pam” – Bateram na porta. Silve não respirava. “pam, pam, pam, pam...” Vou ter que atender, pensou. Eu não tinha nada programado para hoje.
- Senhor Silve, gritou uma voz do lado de fora. Precisamos conversar.
Então, Silve relutantemente foi a entrada e subiu a porta. Haviam muitas pessoas, todas descentemente vestidas, pareciam pessoas do governo. – Senhor Silve, professor, você precisa ir conosco, assuntos de segurança planetária. Disse o homem.
E puxando-o pelo braço foi o arrastando para fora com uma facilidade aceitável, já que ele sabia não ser alguém muito atlético e também não tinha costume de contradizer autoridades, nem não autoridades.
Várias portas foram subindo e todos os agentes foram entrando em seus veículos, formaram um grande cortejo que saiu na frente de muitos curiosos. Silve agora a caminho de sabe-se lá do que, pensava que não havia trancado sua casa. – Que inconveniente, pensou.
***
Foi arrastado a um complexo governamental de pesquisa que já conhecia de suas leituras diárias. Lá foi sendo entregue de um agente para outro até que se viu em uma sala repleta de telas com inúmeras pessoas e então um rosto conhecido apareceu.
Jugo, um homem de grande patente no governo veio lhe cumprimentar. Ele já havia lido sobre este homem. Braço direito do governador e soldado, tinha um aparente ar de superioridade.
– Nos desculpe por atrapalhar seu sono professor. Falou Jugo sorrindo.
– Eu já estava ativo. Respondeu Silve com desdém.
– Você deve estar se perguntando o que fazemos aqui? Questionou o homem.
Ao que Silve respondeu: - Eu estou questionando o que eu estou fazendo aqui. Aparentemente vocês esbarraram em alguma linguagem bem diferente...
Jugo deu de ombros e começou a falar: – Bem professor, eu não gosto muito de pesquisadores, devo admitir, mas sou coordenador deste projeto ultrassecreto do estado e meu cargo aqui me dá certos poderes, inclusive de convocá-lo até aqui e pedir gentilmente que coopere com o que estamos fazendo, se não, não posso garantir sua segurança, sabe? Segurança planetária.
Silve entendeu que era alguém pretensioso, mas não se importou, apenas ficou curioso com os símbolos que apareciam nas telas. Era o suficiente para lhe fazer ficar.
Foi lhe explicado por outro cientista que após desenvolverem uma nova tecnologia de busca por certos tipos de onda espacial, foi expandida a capacidade e distância desta captação por toda a galáxia. E que agora eles haviam recebido muitos dados, símbolos e inclusive sons espaciais, que comprovavam. Não estavam sozinhos no universo.
Silve ficou nervoso ao saber disso, mas, a única coisa que o motivava era a curiosidade e o senso de desvendar aquele lindo enigma que estava em sua frente. Sem pensar em nada mais disse: – Quando posso começar?
***
Muito tempo se passou e Silve já conseguira decifrar muitas coisas, então foi convidado a uma sala com uma grande mesa redonda para explicar suas descobertas a muitos figurões do estado e alguns poucos cientistas e pesquisadores que já faziam parte do projeto.
Em frente a tela, Silve começou:
– Bom, senhores, aparentemente estamos falando de um povo senciente e tecnologicamente no mesmo nível que nós. Sinceramente demos a sorte de tê-los achado primeiro. E continuou: – Vocês sabem a distância que eles estão daqui. Seria impossível ainda um contato presencial, mas do que consegui traduzir, podemos ter mais informações para quem sabe um dia, fazermos o primeiro contato.
Alguns homens na sala escura se remexeram em suas cadeiras como se tivessem sido espetados pela informação.
– Continuando, esta conexão foi feita com um aparelho que emula os sons que eles emitem, ou suas vozes, consegui entender que há diálogos entre eles e esta tecnologia, levando a crer que é um início de I.A.
Um velho sentado na parte mais profunda da sala pigarreou e disse: - I.A.? – Sim, Inteligência Artificial. Respondeu Silve, que continuou.
– Eles possuem valores que representam as quantidades e esses valores aparecem em forma de símbolos. Estes símbolos são códigos de programação da tecnologia deles. Definindo isso, consegui separar os símbolos de valores dos de linguagem.
Sem entender muito, os presentes na apresentação mantiveram silencio como que esperando que Silve traduzisse o que disse. Coisa que ele não fez porque os pesquisadores presentes pareceram entender muito bem.
Continuou: – Consegui através dos sons captados, definir que este símbolo. E apontando para a tela mostrou: – “A”, tem som de “AAAAAAAAAA”, e que este aqui, “L”, é assim “llllllllllllllllll”.
Ouviu pequenos risos dos políticos presentes, mas não se virou para vê-los, apenas engoliu seco e continuou: – Esta tecnologia, responde aos sons “A.L.E.X.A”, com esse som que eu fiz.
Parou um momento e continuou: – Ao pronunciar isso, esta I.A. acessa uma série de informações em uma grande rede planetária e realiza tarefas e comandos. Entendi que eles utilizam esta tecnologia para não se movimentar, para automatizar os processos.
- Defini também que o nome pelo qual chamam seu planeta é TERRA. Sentiu-se ridículo fazendo aqueles sons, mas prosseguiu: – E que após desenvolver um programa adequado de tradução, conseguiremos acessar daqui sua rede e saber tudo sobre eles. O que me parece uma tremenda falha de segurança planetária.
No fundo da sala, o velho levantou de rompante e disse: - Já chega, desenvolva o programa e vamos começar a criar protocolos de defesa contra eles. E assim, Silve iniciou seu novo capítulo na tradução de línguas, pesquisando sobre este povo estranho, os “HUMANOS”.
Continua...